Seder de Pessah … em Santa Apolónia

SEDER DE PESSAH EM SANTA APOLÓNIA

 Lisboa, 4 de Abril de 1947.

Que aconteceu em Lisboa nesta data? Poucos estarão lembrados. Nas efemérides, apenas o início de um movimento grevista no sector naval, e poucos dias depois uma tentativa de golpe de estado, chefiada pelo almirante Mendes Cabeçadas. Os cidadãos envolvidos acabariam na prisão do Tarrafal.

E na CIL? Uma pista? Era véspera de Pessah. Os membros da Comunidade faziam os últimos preparativos para o seder tradicional, carne da shehitah, matsot, maror, vinho cacher do senhor Israel, nada fora do habitual.

Apenas a história que vou contar nada tem de comum. Também será muito difícil que alguém sequer tivesse conhecimento dela, na altura, pois passando-se ao nosso lado, ninguém podia saber o que estava a acontecer.

No cais de Santa Apolónia, estava atracado há duas semanas, para reparações, um pequeno navio americano, o “Tradewinds”.

Construído no Canadá, o “Tradewinds” já fora quebra-gelos no rio S. Lourenço. E já se chamara “Gresham”. Durante a II Guerra Mundial, foi lancha da Guarda Costeira, a patrulhar no Atlântico, contra submarinos inimigos.

Em fevereiro de 1947 foi baptizado “Tradewinds”  em Miami, na Flórida. Fora adquirido pela Haganah para transportar 1500 sobreviventes dos campos de concentração, que nenhuma nação queria receber e aguardavam em Itália a oportunidade para tentar iludir o boicote britânico e entrar clandestinamente na Palestina. Toda a operação tinha que decorrer no maior segredo, para não chegar ao conhecimento dos agentes ingleses.

O comandante não-judeu, contratado para a perigosa missão, esperava em Miami uma tripulação profissional. Quando viu uma dúzia de rapazes novos, que foram chegando de vários pontos dos Estados Unidos e cuja única experiência era, no melhor dos casos, terem servido durante a guerra na Marinha dos Estados Unidos, não queria acreditar no que o destino lhe preparara.

Também os voluntários, que iriam constituir a tripulação daquela casca de noz, quando olharam para o casco cinzento, também não acreditaram que “aquilo” fosse capaz de atravessar o Atlântico.

Tinham aceitado o desafio, com a promessa de que não receberiam um tostão de salário. Agora era tarde para voltar para trás.

Dali foram para Charleston, onde começaram as primeiras avarias e tiveram de perder um dia em reparações. Mau prenúncio. Aportaram depois em Baltimore, onde receberam mais alguns voluntários, meteram mantimentos, para a viagem até à Europa e para os refugiados, quando estes embarcassem na Itália e meteram-se a caminho. Max, Ketzelleh, Greenie, eram alguns dos nomes. Não eram precisos mais apelidos.

O meu amigo Murray Greenfield tinha acabado de regressar da Guerra, para onde fora mobilizado como soldado-marinheiro, quando um amigo, activista sionista, se lhe dirigiu na sinagoga. “Eles andam à procura de um tipo como tu”. Nessa altura, ele era apenas “a nice Jewish boy”. Depois de se certificar que era mesmo trabalho voluntário, que “eles” não pagavam, aceitou “alistar-se”.

Depois de uma curta paragem nos Açores, o navio atracou em Lisboa, onde o esperava o Captain Diamond.

Qual era o verdadeiro nome deste suposto representante da United Fruit Company? Tinha um passaporte canadiano, já se chamara Shaike Rabinovitch, Pinky, e sabe-se lá que mais. Afinal era Yehoshua Barahav, membro do Kibutz Guinossar, e membro da Haganah.

Carpinteiros trabalhavam a bordo, preparando o “Tradewinds” para o transporte de bananas. Prateleiras para o transporte de bananas? Ninguém fez reparo para o facto de que os cachos de bananas se transportam pendurados. Pois não são os americanos uns “atados”? Assim foi avançando, no porão do navio, a construção das tarimbas para os passageiros clandestinos.

Além do comandante e de um ex-menino de coro irlandês Hugh McDonald – “I was a yeshiva boy in Latin”, dizia ele – apenas o cozinheiro não era judeu. Augustine Labaczewski, mais conhecido por “Duke”, polaco e cristão, tinha aprendido a cozinhar numa padaria judaica, e até falava yidish, o que mais tarde seria uma grande vantagem, pois os voluntários judeus não tinham língua comum com a maioria dos refugiados.

Naquela sexta-feira, 4 de Abril, “Duke” lembrou-se de que era véspera de Pessah dos judeus, e perguntou-lhes como iriam fazer o “seder”. Qual “seder”? Ninguém se lembrava disso e até seria perigoso. O polaco não desistiu. Eles tinham que fazer um “seder”, custasse o que custasse.

Com ovos em pó ele fez uma imitação de matsá. Para “Gefilte Fish” faltava-lhe tudo. Mas passou o peixe pelo passador e fez almôndegas de peixe – “gehakte fish”, então não era? Garrafas de vinho, muitas garrafas de vinho não foi difícil de arranjar.

E o guarda-fiscal português, que, coitado, passava dia e noite no portaló, como mandava a lei? Contaram-lhe um “estória”. Era o dia dos anos do capitão. Queriam fazer-lhe uma festa de surpresa. Levaram-no para a ponte de comando, puseram-lhe um prato com comida e uma garrafa de vinho e um copo na mão, e foram para o porão fazer a festa. O bom homem não notou nada de extraordinário.

Murray lembra-se de ter perguntado o Má Nishtaná em Yidish. Mais do que isso ninguém sabia. Agadot não tinham, mas a tradição de contar a saída do Egipto tinha que ser cumprida. Baharav, agora “Captain Diamond” contou-lhes histórias das suas muitas missões cumpridas, a tirar judeus dos países árabes para Eretz Israel.

Mas cantaram muitas canções. Canções de um disco novo da guerra civil em Espanha (nas barbas de Salazar?) o Hino da Palmah, que estava então em voga, algumas canções de Eretz Yisrael, que sabiam e sobretudo cumpriram a mitzvah de “Arba Cossot”. Greenfield tem a certeza de que todos cumpriram, mas não se ficaram pelos quatro copos, talvez quarenta, pois todos ficaram bastante alegres…

Poucos dias depois um dos americanos envolveu-se numa querela num bar, e, na continuação, apareceram agentes da PIDE a bordo, “à procura de comunistas e terroristas.”. Quiseram saber a razão de terem escolhido Lisboa para os trabalhos de carpintaria. Diamond contou-lhes histórias sobre os negócios de bananas da sua companhia, explicou que em Portugal os trabalhos eram mais baratos e que eles iriam mandar mais navios para serem equipados em Lisboa, ofereceu charutos brasileiros, Mas os agentes insistiram em leva-lo consigo para ser inquirido.

O homem da Haganah não teve remédio senão acompanha-los. Ainda foi a tempo de passar uma ordem, em hebraico, para arrancarem mesmo sem piloto, assim que eles se afastassem, e quando estivessem ao largo, mandassem o guarda-fiscal para terra, num salva-vidas.

Quando os polícias viram o barco afastar-se do cais, agarraram o detido e encheram-no de pancada. Baharav, porém, era homem de recursos. Na sede, na António Maria Cardoso, retomou a sua história dos negócios de bananas. Ele tinha que voltar para Paris de onde daria ordens para mandarem mais navios para serem equipados em Portugal. Sobretudo, que lhe devolvessem o passaporte, que tinha sido apreendido. Acabou por ficar amigo do inspector. Anos mais tarde, quando uma companhia de combustíveis britânica se recusou a abastecer dois outros navios da Aliah Bet, atracados em Lisboa, ele telefonou ao seu “velho amigo” e a troco da promessa de uma propina, este resolveu o problema.

Nessa noite o “Tradewinds” atravessou o estreito de Gibraltar e foi atracar a Marselha. Aí estabeleceu contacto com agentes da Haganah e seguiram para a Riviera italiana, onde embarcaram os passageiros. O polaco Labaczewsky, yidishista, foi muito útil no encaminhamento dos refugiados. Para facilitar as comunicações deu como nome “Moishe Schneider”. Só os tripulantes continuaram a chama-lo por “Duke”.

Um avião britânico, que os sobrevoou, reconheceu o barco com imigrantes clandestinos, e deu o sinal para serem cercados no Mediterrâneo por unidades da marinha de guerra. “O vosso navio não está em condições de navegar. Entreguem-se, quanto mais não seja por razões humanitárias.”

Não se entregaram. Pelo contrário içaram a bandeira da Haganah e colocaram uma tabuleta com o novo nome do navio “HATIKVA”.

Acabaram por ser interceptados e transferidos para o navio-prisão “Empire Lifeguard”.

Quando o último dos prisioneiros desembarcou em Haifa e todos entraram nos autocarros, que os levariam ao campo de internamento britânico, ouviu-se uma forte explosão no “Empire Lifeguard”. Os voluntários tinham conseguido montar uma bomba, com componentes escondidos nas partes mais estranhas dos seus corpos. O navio-prisão afundou-se no porto.

Os sobreviventes dos campos de concentração foram levados da Terra Prometida para uma prisão britânica em Chipre. Alguns conseguiram voltar para a Palestina, ao abrigo de uma quota mensal que os ingleses iam concedendo. Os restantes só em 1948, depois da independência, fizeram finalmente a aliah.

Muitos dos voluntários acabaram por ficar a viver em Israel.

Entre eles, Murray Greenfield. Hoje octogenário, ele foi sempre um homem de iniciativas e de projectos de voluntariado. Foi ele que trouxe os primeiros judeus da Etiópia, jovens que conseguiu inscrever na Universidade de Telavive, para estudarem e mais tarde servirem de líderes da sua comunidade.

Ao mesmo tempo dedicou-se aos negócios, tornou-se negociante de propriedades e empreiteiro, fundou uma importante casa editora, hoje dirigida por seu filho. Ele é apenas “aitse geiber”, como ele diz em yidish, “conselheiro”.

Conheci o Murray quando ele me “mobilizou”, haverá uns 25 anos, para um projecto a favor do Museu da Diáspora, Beit Hatfussot. Desde então encontramo-nos em diversas circunstâncias. Mas Portugal nunca foi mencionado nas nossas conversas. Apenas sabia que ele estivera envolvido na Aliah Bet. Li a história do Seder em Santa Apolónia em outras fontes.

Contou-me agora.o Murray Greenfield que, apesar de todo o cuidado da tripulação em não serem conhecidos como judeus, ele foi o único que, por acaso e inesperadamente, falou com um judeu. Foi o relojeiro a quem comprou um Omega, e que lhe perguntou se era judeu, mas aceitou a sua versão de que estava em Lisboa como turista. O relojoeiro era ruivo… por isso só podia ser o meu descansado Pai.

 

Inácio Steinhardt

20/2/2005

 

 

 

 

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Memorial da Inquisição

No átrio de entrada da sinagoga Kadoori-Mekor Haim, do Porto, sobreposto a um dos quatro painéis de azulejos, que decoram a sala, vê-se um estranho enxerto com outros azulejos, cuja presença parece difícil de entender.

Lemchen

O visitante que decidir perguntar aos donos da casa, receberá, como resposta, que, segundo eles ouviram dizer, aquele enxerto está ali a encobrir um memorial em opróbrio da Inquisição, que o Capitão Barros Basto, fundador da sinagoga, ali mandará colocar. As circunstâncias políticas vigentes, quando da inauguração, forçaram-no a encobrir o memorial.

Por estranho que isso pareça, um memorial precisamente nesse sentido, encontra-se agora no muro exterior do Mosteiro de S. Bento da Vitória, no lugar onde foi o último bairro judeu do Porto, a Judiaria do Olival. Foi ali colocado por ordem da Câmara Municipal do Porto, de onde me disseram que foi oferecido por alguns judeus de França. Porquê precisamente no edifício do mosteiro, cujo nome é suposto invocar a Vitória da igreja sobre a sinagoga? A Providência terá as suas explicações… Continuar a ler

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O sonho da lucidez

“Serranas nam hajais guerra         que eu sam a flor desta serra.”

(Gil Vicente – “Auto da Cananeia”

Esta noite tive um sonho, e lembrei-me dele, de manhã, quando acordei. Todas as noites eu sonho muito. “Vejo muitos filmes” – costumo eu dizer – mas quando acordo raras vezes me lembro do que sonhei.

Hoje lembro-me, foi um sonho bonito, e por isso vou já contar o que sonhei, para me não esquecer.

Sonhei que já tinham decorrido as eleições em Israel, e o resultado fora uma surpresa: Nem Benjamim Netanyahu, nem Isaac Herzog. O novo primeiro-ministro era agora Naftali Bennett, líder do partido ultranacionalista Bait Yehudi (Lar Judaico). Agora todos esperavam que ele tomasse medidas para realizar o plano dos “fieis da Terra de Israel” – a ocupação de todo o território de Erets Israel, prenúncio de uma guerra longa e sangrenta, condenada por todos os países do mundo.

Quase ao mesmo tempo, houve eleições na Autoridade Palestina. E quem as ganhou? Mahmud Abbas (Abu Mazen), ou algum dos políticos do Fatah (acrónimo reverso de Movimento de Libertação Nacional da Palestina, considerado o mais moderado – ou menos extremista – dos partidos políticos palestinos)? Não, quem ganhou as eleições foi o Hamas (Movimento de Resistência Islâmica), e o novo presidente da Autoridade era agora Ismail Hanyeh. Agora ele teria a oportunidade de concretizar o seu lema político: “Jamais reconheceremos o governo usurpador sionista e continuaremos o nosso movimento de jihad até à libertação de Jerusalém”.

Bennett e Hanyeh frente a frente, o mundo compreendeu que estávamos quase com certeza nas vésperas da terceira guerra mundial.

Mas então, no meu sonho, deu-se… eu ia escrever um milagre. Mas eu não acredito em milagres. Aquilo que se convencionou chamar de milagres são actos do Criador que nós ainda não sabemos explicar. Um indivíduo que tivesse sido congelado há um século e agora voltasse à vida, quando visse alguém meter um cartão na parede e sair de lá dinheiro, não teria dúvidas de que estava a assistir a um milagre. Este computador em que estou a escrever, e que faz tantas maravilhas, se eu não soubesse (mais ou menos!) como ele funciona, não poderia senão considera-lo um milagre, como a televisão e os satélites artificiais.

O que aconteceu foi pois um acto da Providência que nos rege, um surto inesperado de lucidez no mundo. Não um ensaio, como o do senhor Saramago, que lá está na eterna glória, mas uma verdadeira lucidez que atingiu os dois novos líderes políticos desta Terra (com)Prometida.

Bennett é um judeu religioso, como tal deverá ser amante da paz, embora não seja essa a sua reputação actual. Ele reuniu os seus ministros, e disse-lhes: “Todos sabemos que toda esta terra, do Jordão até ao Mar Mediterrâneo era nossa e foi dada aos nossos antepassados, como está escrito na Bíblia. Mas todos vemos a realidade: vive aqui também outro povo. Se continuarmos, judeus e árabes, a lutar para ficarmos com a terra só para nós, continuaremos a matar os nossos filhos e os filhos deles, até à eternidade. A paz não será jamais alcançada. A única solução só poderá ser entendermo-nos com eles, e juntos ensinarmos aos nossos filhos, nas escolas, essa realidade.”.

Hanya, é formado pela Universidade Islâmica de Gaza, e também um homem crente e religioso. Em Gaza, perante os seus seguidores, que se preparavam para planear a nova intifada para recuperar o território e lançar os judeus ao mar, também sugeriu e convenceu de que isso nunca seria realizável, e que todas as guerras só causariam muitos mais milhares de mortos e a destruição da terra. “Passados mais de 100 anos, os sionistas ainda cá estão, e aquilo que eles fizeram no país, nós poderemos fazer muito mais, mas com eles, aceitando-os e dando-nos as mãos em paz.”

Mas nós hoje somos refugiados, eles ocuparam as nossas terras, tudo quanto construíram no Estado de Israel, foi sobre o que herdámos dos nossos pais. Os nossos filhos aprendem a nossa história nas escolas. Como lhes iríamos explicar agora que cedermos, que reconhecemos o alegado direito histórico dos sionistas?

A história fomos nós que lhes ensinámos, como também os judeus ensinam aos seus filhos nas suas escolas, cada um à sua maneira. Chegou a hora de, nas nossas escolas e nas escolas deles, se ensinar às crianças a realidade: que somos dois povos nesta terra, que só pode sobreviver e progredir, se aceitarmos todos esta realidade e avançarmos juntos para um ambicioso programa de construção e de investigação.

No Knesset, em Jerusalém, os deputados das direitas e das esquerdas e dos muitos partidos que se dizem do centro, perguntam ao novo primeiro-ministro, subitamente atacado de lucidez: “e os habitantes judeus dos colonatos na Cisjordânia, eles também são uma realidade. Serão destruídas as suas casas e eles expulsos?”

Sim, eles são uma realidade, assim como também um milhão de árabes que hoje são cidadãos de Israel, e vivem no nosso território. No dia em que judeus e palestinianos reconhecerem a realidade das suas vidas, no dia em que essa realidade for ensinada nas escolas de ambos os povos, vão ver que encontrarão as soluções adequadas. Basta que haja boa-vontade e desejo de viver e não de matar e morrer.

E Jerusalém, a nossa capital, onde estava o nosso Templo Sagrado, também vamos dividir com eles? A mesma pergunta fizeram em Gaza em relação às mesquitas de El-Aqsa e de Omar.

Em Jerusalém, só a cidade velha, intramuros, representa um verdadeiro problema. Ela encerra os lugares mais sagrados de três religiões. Também os cristãos lá têm os seus lugares santos.

Leiam o que disse o profeta Isaías: “A minha Casa será uma Casa de Oração para todas as Nações”.  (Isaías 56).

Quando toda a Humanidade (homens e mulheres) tiverem adquirido a lucidez imprescindível, eles encontrarão a Casa de Oração, onde todos os povos irão fazer as suas preces. Não necessitarão de pedir, porque o Criador dá a todas as criaturas, segundo as suas necessidades. Terão sobretudo de agradecer tudo quanto receberam da Vida, incluindo o ar gratuito que respiramos. Agradecer o que tempos e também o que não temos, aquilo que há no mundo e que nós não queremos que caia sobre nós.

Sonhar é legítimo e permitido. É gratuito também. Se quisermos isto não será um sonho.

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Rua de Lisboa, em Jerusalém

Onde fica a Rua de Lisboa, em Israel?

A única que hoje existe fica na cidade de Sederot, no Neguev, num bairro em que todas as ruas têm o nome de uma cidade estrangeira. A Rua de Lisboa fica entre a Rua de Dublin e a Rua de Roma, atravessando as ruas de Madrid e de Bruxelas.

Mas, em tempos remotos, no século XII, houve uma Rua de Lisboa, na cidade velha de Jerusalém. Nessa altura, a velhíssima cidade de Lisboa era nova na Cristandade. Havia sido reconquistada aos Mouros, pouco antes.

Na reconquista da cidade moura de Al-Usbuna, em 1147, participaram, ao lado das tropas de D. Afonso Henriques, cruzados ingleses, flamengos e normandos, que passaram pelo Porto. Iam para a Terra Santa participar na segunda Cruzada, proclamada pelo Papa Eugénio III, em resposta à conquista de Edessa aos cristãos, pelos muçulmanos, em 1144.

Ao cabo de cinco meses de cerco, os mouros de Al-Usbuna acabaram por se render. Em cumprimento do acordo prévio entre o rei português e os chefes dos cruzados, estes receberam, como recompensa, o saque da população moura, e os direitos de povoamento e posse de uma parte das terras conquistadas na campanha. Isso fez com que ficassem em Portugal muitos guerreiros cruzados. Outros regressaram às suas terras, posto que o Papa atribuíra aos cruzados, que participaram na luta contra os Mouros, as mesmas indulgências que concedera aos que lutaram contra os muçulmanos na Terra Santa. Os restantes continuaram a viagem marítima pelo Mediterrâneo, para participarem na luta contra os muçulmanos em Edessa e na Terra Santa.

Nessa altura, à entrada da cidade de Jerusalém pela Porta de Damasco, na direcção do Santo Sepulcro, foi dado a uma das primeiras ruas o nome de Rua de Espanha (ou dos Espanhóis). Os cruzados que haviam participado na Conquista (Reconquista) de Lisboa, deram a outra rua, situada junto à Rua de Espanha, o nome de Rua de Lisbona. Não se sabe de quem foi a iniciativa. Num documento da época, não relacionado com este evento, é referido o nome de um Badoin (Baudoin/Balduino) de Lisbona. Quem seria? Teria participado na conquista de Lisboa? Teria sido ele que decidiu comemorar dessa forma a reconquista da actual capital de Portugal? Há muito poucas informações documentais sobre qualquer das duas ruas, cuja existência aliás foi efémera.

Porque esta segunda cruzada foi um fracasso absoluto. Os cruzados não reconquistaram Edessa ou qualquer outra cidade. O Reino Cristão de Jerusalém ficou numa posição política mais fraca. Tentaram depois conquistar Damasco. Esta era uma cidade-estado independente, que pontualmente se aliava aos ocidentais contra os líderes muçulmanos mais poderosos. Com a sua campanha contra Damasco, os cruzados ajudaram à unificação do mundo islâmico, que fez um apelo à jihad, a guerra santa. Finalmente, em 1187, o líder muçulmano curdo Salah ad-Din (Saladino) conquistou Jerusalém aos Cristãos.

E aí os nomes das ruas de Lisboa e de Espanha foram mudados para nomes árabes.

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Em que estou a pensar – II

Para melhor compreender o que vou escrever hoje, sugiro que leiam, se ainda não leram, a primeira parte, que escrevi há dias em https://ishluz.wordpress.com/2014/07/19/em-que-estou-a-pensar/

Hoje estou a pensar que o que tenciono escrever aqui, à luz dos acontecimentos terríveis do que se estão a passar neste país, nas últimas semanas, parecerá ao leitor menos avisado, e sob a influência das imagens que vemos na televisão, em todo o mundo, um artigo de ficção científica. Também a mim me parece já que estou a sonhar ou a lembrar-me de algum filme. Mas não estou tal e não foi um filme. Foi uma realidade, graças à qual eu, e muitos como eu, continuamos a acreditar que a paz é possível, nesta terra onde agora morrem milhares de pessoas, homens, mulheres e crianças, de ambos os lados e tantas casas são destruídas. Foi uma outra realidade, diferente daquela que me obrigou, há dez minutos, a parar abruptamente de escrever e correr para o abrigo, por causa do irritante alarme que avisava ter sido disparado um míssil (três, afinal), da Faixa de Gaza, para a área onde vivo com minha mulher, a quase uma centena de quilómetros de distância.

Mas pronto, passou, e aqui estou de novo a escrever para vós, tentando lembrar o quase paraíso perdido, e porque se perdeu.

Deixei-vos, no capítulo anterior, em 1948, ano da independência do Estado de Israel. Nessa altura, já o atrito entre a população judaica e a árabe era muito grande. Judeus nunca deixaram de viver na Palestina, mas, desde a Diáspora, em números muito pequenos. Durante o longo período da administração otomana, eram sobretudo judeus orientais, muitos dos quais envolvidos na sociedade e na vida económica da região. (veja “Eça de Queiroz e os Amzalak”, in Tikva – http://www.cilisboa.org/documents/tikva_07/bu_7_59.pdf pag.4-5, e nos dois números seguintes).

A chegada dos primeiros judeus da Europa oriental, que vieram para cultivar por suas próprias mãos, a terra dos seus antepassados, não criou, de princípio, atritos com os vizinhos árabes, também eles agricultores nas terras pertencentes aos grandes latifundiários, os “efendi”, que, na sua maioria viviam nos estados árabes vizinhos. Eram estes que vendiam as terras aos judeus. As relações entre os trabalhadores das terras, de ambos os povos, eram boas, havia colaboração, e procuravam aprender uns com os outros. Os judeus traziam as novas tecnologias ocidentais, e depressa aprendiam a falar árabe; os “falahin” usavam ainda os métodos tradicionais e também adquiriram rudimentos da língua idish, trazida pelos recém-chegados. Ainda hoje passa, aqui na minha rua, um comerciante de “ferro-velho” palestiniano, numa velha carrinha Ford, que vem comprar frigoríficos velhos, carpetes, móveis, para vender nas “feiras da ladra” do “outro lado”. Antes vinham em carroças puxadas por burros, mas ainda hoje ele apregoa, rua fora, pelo megafone: “alte sachen”, no jargão judaico dos guetos.

A situação deteriorou-se quando o Mufti começou a pregar, na mesquita, o ódio contra os infiéis “moscovitas”. Foi ao ponto de estabelecer uma aliança com Adolph Hitler para a eliminação de todo o povo judaico. Houve progromes em diversas cidades. A família do rabino de Lisboa, Abraham Castel, que habitava há séculos no bairro judaico da cidade de Hebron, foi espancada e expropriada, e teve que se refugiar em Jerusalém. Também no bairro judaico da cidade de Jerusalém, intramuros, os judeus foram espancados e assassinados, em 1948. A parte oriental da cidade ficou nas mãos da Legião Árabe da Jordânia.

Um cliente meu, armazenista de papel, judeu ortodoxo, contou-me como, nas vésperas do progromo da cidade velha de Jerusalém, o seu pai foi procurado por clientes árabes, que lhe trouxeram os seus trajes tradicionais, para toda a família, para eles vestirem e não terem que fugir. Mas o pai do meu amigo fugiu com toda a família para a parte ocidental de Jerusalém, onde o novo Estado viria a estabelecer a sua capital, sede do governo e o parlamento, o Knesset.

Em 1967, quando foram retiradas as cercas de arame farpado que dividiam a cidade de Jerusalém, os clientes árabes procuraram o armazém de papel do seu antigo fornecedor, então já no bairro ortodoxo de Jerusalém ocidental, abraçaram-no, e voltaram a fazer-lhe as suas encomendas, como se tivessem deixado de o fazer apenas na véspera.

1967 foi o ano da Guerra dos Seis Dias e da reunificação de Jerusalém. A guerra rebentou porque a situação geoestratégica da região apontava nitidamente para um ataque eminente dos países árabes contra Israel. Uma tentativa mais, a quinta, para expulsar os judeus do Médio-Oriente. A ONU atendera as exigências do presidente egípcio, Gamal Abdel Nasser, e retirou os “capacetes azuis” da zona de separação no Sinai. O Egipto pôde, assim, concentrar as suas tropas na fronteira com Israel, no que foi acompanhado pela Síria e pela Jordânia. Esta, recorde-se, incluía a antiga Transjordânia e a Cisjordânia, de que se apoderou em 1948.

O CEM da Israel, Moshe Dayan, compreendeu que a única salvação era antecipar-se ao ataque, e concebeu o audacioso plano de arrasar as forças aéreas do Egipto e da Síria, em terra, antes que levantassem voo para atacar Israel. Egipto, Síria e Jordânia, com o apoio do Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Argélia e Sudão, avançaram então pelas fronteiras com Israel. Mas a destruição das suas aviações, em que se baseava a sua estratégia, surpreendeu-os demasiado. O exército israelita pode avançar rapidamente contra os invasores, quer no sul, ocupando Gaza e a Península do Sinai, que na Cisjordânia, até à margem ocidental do Rio Jordão. Mas a consequência mais significativa desta vitória, para os judeus, foi a recuperação e reunificação da cidade santa de Jerusalém.

 

Chega de pensar em guerras e vamos falar de paz. Foi isso que toda a gente pensou, naquela altura, não só os israelitas, mas penso que também muitos árabes. É que estes, a gente do povo, tinham uma ideia muito errada sobre Israel. Pensavam no Estado de Israel em termos de comparação com as suas cidades. Agora, os israelitas correram para a cidade velha de Jerusalém, num legítimo anseio de tocarem no Muro Ocidental antigo Templo do rei Salomão, destruído pelos romanos. E foram lá fazer as suas orações seculares.

No caminho, passaram pelas lojas das ruas estreitas do Shuk (mercado, o bazar), e na volta entraram para ver o que lá se vendia. Nunca aqueles comerciantes tinham tido tão grande invasão de “turistas”. No princípio eles compravam recordações, carpetes, utilidades, artigos orientais. Mas depois começaram a ver os preços, sem direitos de alfândega e taxas, e procuraram outras lojas, de discos e gira-discos, electrodomésticos, tudo se comprava por preços muito em conta, e os comerciantes locais não cabiam em si de contentes com a bonança.

E não foi só em Jerusalém (encontrei lá bacalhau em postas – um achado, que não havia em Israel) pois os negócios prosperavam em todas as cidades da Cisjordânia. Minha mulher e eu começámos a fazer passeios de sábado à cidadezinha de Kalkília, para passear no mercado, e adquirir sobretudo frutas e legumes, produtos agrícolas muito frescos e mais baratos. Os comerciantes palestinianos recebiam-nos com alegria, contavam-nos as suas vidas, este que tinha sido polícia, no tempo dos ingleses, aquele que tinha parentes na Jordânia e ia visita-los pelas pontes sobre o Jordão, etc.

Como é que eles viam a invasão dos judeus? Depende a quem perguntávamos. Os mais novos tinham ambições nacionalistas, os mais velhos só queriam que os deixassem fazer as suas vidas em paz. Um pachorrento agricultor junto da fronteira com Gaza, dizia: “O meu avô começou a plantar aqui tomate, no tempo dos turcos. O meu pai, continuou no tempo dos ingleses. Agora estão cá os israelitas, que diferença me faz? Continuo a colher os tomates e a vende-los, como vê.”

Nem todos pensavam assim. Havia postos de controlo nas estradas. Para passar para dentro de Israel eles tinham que ser portadores de uma licença do Governo Militar israelita. Perdiam horas com a burocracia e os controlos dos soldados. Não se sentiam livres como os israelitas. Começaram a visitar as cidades israelitas, Jerusalém, Tel-Aviv, viam coisas que só conheciam dos filmes, e também roupas simples, que compravam mas com sacrifício. Não era difícil encontrarem trabalho, na agricultura, na construção, nas oficinas de mecânica automóvel, nas fábricas. Ganhavam menos do que os colegas israelitas, mas, mesmo assim, mais do que ganhavam nas suas terras, onde, além disso, era difícil conseguir trabalho. Começaram a ambicionar coisas que não tinham antes e agora já conseguiam comprar.

Os motoristas de táxi palestinianos vinham de manhã com os carros cheios para Israel, e passavam cá o dia, percorrendo as estradas, onde sempre apareciam outros palestinianos para serem transportados de um lado para o outro, e, depois, no regresso a casa.

Obviamente surgiu uma classe de “empreiteiros de mão-de-obra”, tanto árabes (de Israel e da Palestina) como israelitas. Eles iam com as suas carrinhas buscá-los às suas terras, arranjavam-lhes trabalho fixo, ou deixavam-nos em certas esquinas, onde quem precisava de um trabalhador temporário ia contratá-los.

Muitos, mais educados, foram trabalhar em restaurantes, hotéis, locais de turismo.

Ali, um empreiteiro árabe de Nazareth (Israel) explicou-me assim a situação: “Quando os judeus começaram a chegar cá, eles trabalhavam a terra e construíam as suas casas. Depois, quando deixámos de viver sobre governo militar, passaram a empreiteiros e começaram a pagar-nos, para nós construirmos as suas casas. Agora, desde 1967, nós, árabes de Israel, somos os empreiteiros, empregamos palestinianos, e eles constroem as casas para os judeus e para nós”.

Empresários da Cisjordânia e de Gaza desenvolveram negócios com colegas israelitas, quer vendendo as suas mercadorias, quer comprando, quer ainda utilizando canais comuns de marketing. As vantagens eram óbvias para ambos, e não há razão para que se não renovem, quando houver um ambiente de paz e harmonia, e ninguém se sentir prejudicado pelo outro.

Entre os trabalhadores palestinianos e os seus patrões israelitas, agricultores, pequenos industriais, etc. estabeleceram-se relações de amizade bastante íntimas. Não é uma excepção, ainda hoje os agricultores israelitas tratam geralmente os trabalhadores tailandeses, ou chineses, como se fossem membros de família. Estão-lhes gratos pelo bom serviço que lhes prestam. Os palestinianos, sentido como eram bem tratados, começaram a convidar os patrões israelitas para as suas festas familiares. Em troca, os israelitas faziam o mesmo por ocasião das suas celebrações familiares.

Porém, nem tudo eram rosas. Um dia, estava eu numa oficina onde estavam a cuidar do meu carro, quando apareceu um palestiniano a oferecer esteiras de oração para vender. O preço era muito barato, e decidi comprar duas para os nossos piqueniques. Nessa altura, o dono da garagem aproximou-se e perguntou-lhe em árabe de onde ele era: “Min ElHalil” (de Hebron). O outro disse-lhe mais qualquer coisa, muito asperamente, que não percebi. O rapaz olhou para mim com um olhar assustado, recebeu as duas moedas e desapareceu rapidamente. Surpreendido, perguntei ao garagista o que lhe tinha dito sobre mim. “Não foi sobre si. É que houve agora mesmo um atentado suicida no mercado Carmel. Há mortos e feridos. Tenho a certeza de que vai haver um levantamento popular contra os árabes. O rapaz disse que é de Hebron. Eu também nasci em Hebron, embora a minha família tenha tido que fugir de lá no tempo dos progromos. Não queria que ele fosse atacado. Disse-lhe que fugisse depressa. Oxalá escape.”

Depressa aprendi que as ruas e aldeias da Cisjordânia estavam a ser dominadas por movimentos de resistência, como o Fatah, o Jihad e o Hamas. Estes não admitiam que houvesse cidadãos que não colaborassem com eles. O primeiro passo obrigatório era cometer um atentado para provar a sua coragem e dedicação ao Islão. Um dia, em Raanana, um agricultor foi assassinado. Por quem? Pelo seu trabalhador palestiniano, o mais amigo e dedicado que ele tinha. Chegou de manhã ao trabalho, e, sem dizer uma palavra, puxou de um facalhão e esfaqueou o patrão. Nem sequer fugiu. Foi preso. Interrogado pela polícia, disse que o tinham ameaçado de morte, se não fizesse uma coisa assim. E assim perdeu o emprego, e o ganha-pão e foi para a cadeia. Como ele, muitos outros que cometeram atentados semelhantes, matando quem lhes dava o pão a ganhar, ou simplesmente alguém que se cruzava com eles na rua. Muitos seguiram a via mais rápida dos atentados suicidas, nos autocarros, nos hotéis, nos restaurantes.

Deixámos de ir ao mercado de Kalkilia, quando um israelita, comerciante de louça, se sentou ali, num restaurante, com um seu cliente, para “enxugarem” juntos uns pratos de húmus, como faziam sempre que ele ia a Kalkilia. Nesse dia, entraram dois jovens palestinianos e, sem dizer palavra, dispararam sobre ele e o mataram. Porquê? Porque era preciso matar judeus, para poder viver na sociedade palestina.

Era natural que esta situação se desenvolvesse.

Porque Israel cometeu, logo no início da invasão, dois grandes erros.

A maioria da população de Israel viu no resultado da Guerra dos Seis Dias uma oportunidade única para resolver o conflito com os árabes. Bastaria chegar a um acordo com o rei Hussein da Jordânia, e negociar com ele a devolução dos territórios ocupados, sem mais exigências senão o estabelecimento de uma fronteira reconhecida por ambas as partes (que Israel ainda hoje não tem), baseada na linha de separação de Junho de 1967, com algumas alterações em favor de vencedor claro, e sobretudo a manutenção de Jerusalém como cidade unificada.

Mas Moshe Dayan era suficientemente arrogante, e deixou-se embebedar com a vitória fulgurante. E não foi o único. Dayan disse que continuava “à espera do telefonema do rei.” Ora Hussein era um rei fraco, sentado num trono periclitante, que os ingleses haviam criado para o seu avô, o emir Abdallah, beduíno de Hedjaz. A metade beduína da população era-lhe fiel. Mas a outra metade eram refugiados palestinianos. Ele não podia tomar a iniciativa de negociar um acordo com os israelitas, como mais tarde fez o presidente Sadat do Egipto. O telefonema do rei não chegou.

Por outro lado, muitos políticos judeus de Israel pensaram traduzir a vitória na colonização de uma parte da Cisjordânia, que, diga-se de passagem, não estava registada em nome de ninguém. No princípio falava-se apenas nas regiões bíblicas da Samaria e da cidade dos patriarcas, Hebron, de onde a população judaica tinha tido que fugir. Tanto os governos das direitas como os das esquerdas encorajaram a população a comprar casas nos territórios. Quando estes últimos acordaram para a realidade da situação já era demasiado tarde. Muita gente já tinha feito a sua vida nos colonatos. Seus filhos já lá nasceram. Não eram só colonos por ideologia. Eram também jovens casais que procuravam melhor qualidade de vida, por preços suportáveis. E as distâncias eram insignificantes. A 30 quilómetros de Tel Aviv, 5 quilómetros de Kfar Saba, já estamos nos territórios que uns dizem “ocupados”, outros consideram “libertados”.

Um paradoxo, a que normalmente se não presta atenção, é que, quem trabalha na construção desses colonatos, a que a liderança palestiniana tanto se opõe, são os palestinianos mesmos. E são eles também que trabalham nas fábricas que empresários israelitas criaram junto dos colonatos, para aproveitar a mão-de-obra local. Boicotando os produtos dessas fábricas, os objectores ocidentais estão a contribuir principalmente para o desemprego dos palestinianos.

Foi com a ocupação da Cisjordânia e de Gaza em 1967, pelos israelitas, que o Movimento de Libertação da Palestina, Fatah, criado por Yasser Arafat e outros, ganhou importância.

Algures nos fins da década de 1970, princípios da de 1980, eu tinha um cliente em Gaza, um dessas famílias de “efendis”, proprietários de tudo quanto era negócio na Faixa: moinhos de farinha, importação e distribuição de automóveis e de electrodomésticos, bombas de gasolina, fábricas, e agricultura, exportação de laranjas e outros produtos, tudo, enfim.

Os membros dessa família vinham a Israel, às reuniões connosco, nos seus luxuosos automóveis com matrículas azuis da Palestina.

Um dia convidaram-me para um almoço num bom restaurante em Gaza, à beira-mar. Durante a conversa perguntei ao anfitrião mais importante, o primogénito e herdeiro, a sua opinião sobre o futuro de Gaza e da Palestina.

“Isto vai acabar muito mal. E os culpados são vocês. Abriram as passagens, deixaram entrar a nossa população nas vossas cidades. Deram-lhes trabalho. Pagam-lhes uma miséria, comparado com o que pagam aos israelitas. Mesmo assim, uma família de 7/8 pessoas a trabalhar tem dinheiro para comprar muita coisa. Até 1967, eles só sabiam sobre Israel aquilo que nós lhes contávamos. Nós sabíamos a verdade. A minha irmã, que vive em Beirute e tem vários passaportes, compra os seus vestidos nas lojas da Rua Diesengoff, em Tel Aviv. Mas nós dizíamos-lhes que os israelitas viviam numa miséria pior que a deles, que, nas ruas de Tel Aviv, as pessoas caiam mortas de fome. Agora eles entram e saem de Tel Aviv, fazem as suas compras nas lojas mais modestas, e sabem que não é assim. Agora cada família já tem um frigorífico e uma televisão”.

“E então, isso é mau?” – “Não vê que é? Quando vocês se forem embora – porque um dia terão que se ir embora – eles vão exigir de nós o mesmo, e nós não lhes poderemos dar. Então vão correr rios de sangue em Gaza.” E depois de uma pausa –”Eu não posso ver sangue correr nas ruas. Antes disso, irei viver para Londres, onde já tenho vários apartamentos, que alugo.”

E Yasser Arafat (na altura estava em Beirute ou talvez já em Tunes) como representante do povo palestiniano? “Arafat é um “bluff”, ele não representa ninguém. Mas nós não podemos denunciar o “bluff”, porque não temos força. Vocês podem denunciá-lo.”

Quando Israel assinou o acordo de paz com o Egipto, e devolveu àquele país a Península do Sinai, o primeiro-ministro Menahem Beguin quis incluir no “pacote” a Faixa de Gaza. Mas Anwar Sadat recusou terminantemente. Ameaçou mesmo não assinar o acordo de paz, se Israel insistisse em incluir Gaza.

Em 1993, o primeiro-ministro israelita, Yitshak Rabin, em Oslo, apertou a mão de Yasser Arafat, e assinou com ele um acordo, que criou uma região autónoma para os palestinianos e deveria se o primeiro passo para um acordo de paz. Esse acordo nunca foi concluído, apesar das ofertas mais do que generosas propostas a Arafat, por Ehud Barak, quando primeiro-ministro. É que também Arafat não tinha “força” para assinar um acordo com os judeus.

Compreendem agora um pouco melhor o porquê da atual situação?

E ainda não falámos do Hamas.

 

 

 

 

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Em que estou a pensar?

 What’s in your mind?

A página inicial do Facebook lança-me o desafio. Em que é que estou a pensar?

Neste momento estou a pensar na minha amiga S., e nos alegres anos da adolescência em que convivemos com outros amigos e aprendemos a conhecer-nos uns aos outros.

Hoje, passados setenta anos, mais ou menos, ainda continuamos amigos, pelo menos eu assim me considero, apesar dos anos e da distância que nos separa. Só que a S. , ela em Portugal e eu em Israel, sujeitos a diferentes culturas, diferentes experiências, e diferentes perspectivas políticas, me acusa, embora indirectamente, de usurpar a terra e os direitos de outro povo, e de assassinar as suas crianças.

São duas acusações que eu repudio, evidentemente. Terei que justificar o meu repúdio sob duas vertentes diferentes, que se complementam.

Eu penso que todos os povos, em tanto que sociedades de seres humanos, têm direito à sua terra. Perguntei à S. onde era a minha terra, e insisti na minha pergunta, mas ela não me respondeu. Terá as suas razões, talvez por não querer pensar num problema penoso para ela, e está no seu direito. Se tivesse tido a coragem de me responder, talvez ela me tivesse dito que, na sua opinião, a minha terra, como a dela, é aquela onde nascemos, Portugal.

É certo que me considero patriota português, uma das minhas duas pátrias, e que nenhum cumprimento me foi tão grato quanto o de um embaixador de Portugal, aqui, em Israel, que me apresentou ao Chefe de Estado, como “100% israelita e 100% português“. Mas os meus pais não nasceram em Portugal, como os da S. também não. Uns e outros tiveram que abandonar as terras em que nasceram, onde não eram desejados, por serem judeus. Estou a lembrar-me de que foi o avô dela o meu primeiro professor de hebraico, a língua do povo judeu, e a que hoje falo na minha terra, Israel.

E estou a lembrar-me também de que a minha saudosa mãe, que nasceu na Hungria, numa região que depois passou a ser romena, me contava que os outros romenos diziam aos judeus: “Du-te la Palestina!”.  (Ide para a Palestina). Agora, ironia dos tempos, dizem-nos exactamente o contrário: “Vão-se embora da Palestina!”. Como dizia o grande vate:“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”

Palestina foi o nome que deram à Terra de Israel os romanos, que depois nos expulsaram dela e nos dispersaram pelo mundo, há dois mil anos. Foi essa dispersão que deu origem ao anti-semitismo, que deveria ser chamado, com mais propriedade, antijudaismo.

São os judeus os culpados desse antijudaísmo? Tenho para mim que sim:

  1. Todos os povos, quando chegam a uma nova terra, vêem com a intenção de a conquistar. Os judeus nunca conquistaram nem tentaram conquistar nenhuma terra. Onde chegavam, viam na terra um abrigo temporário, até lhes ser permitido retornar à Terra de Israel. Por isso, não eram como o resto da população, eram “diferentes”, e o “diferente, o outro”, é sempre alvo de desconfiança.
  2. Os judeus não procuravam acumular bens de raiz, senão numa pequena escala. Estavam sempre na expectativa do momento em que seriam perseguidos, em que teriam de partir para outras terras, num deambular contínuo. Os únicos bens que eventualmente poderiam levar consigo eram o saber e o dinheiro.

Por isso, os judeus são diferentes, têm (quando conseguem ter) saber e dinheiro. Ninguém os quer a seu lado.

Quem não tem terra, tem o direito de sobrevivência, onde quer que a consiga.

Não é isso que vemos com os cidadãos africanos, muçulmanos da Somália e da Eritreia, cristãos da Etiópia, que ultimamente se infiltram em Israel, através da fronteira com o Egipto, que lhes recusa asilo? Antes de morrer, procuram sobreviver nas terras dos outros, onde conseguem chegar. Israel é para eles a única alternativa.

Não acontece o mesmo com os refugiados muçulmanos do Norte de África, que chegam ilegalmente aos países da Europa, adquirindo novas nacionalidades e influenciando a vida e a cultura dos países europeus?

Tudo bem, mas analisemos a outra vertente: os judeus estavam dispersos pelo mundo, sujeitos a perseguições, maus tratos e expulsões, que culpa têm disso os árabes, actuais habitantes da terra dos seus antepassados? Passaram-se dois mil anos. Há muito menos do que isso, os muçulmanos eram os senhores da Península Ibérica. Isso dá-lhes o direito de desocupar os actuais habitantes da Espanha e de Portugal e de proclamar aí o seu estado? Direito não terão, mas há quem diga que não estamos longe de que tal aconteça.

Comparemos situações: Tenho entre os meus amigos alguns que nasceram em Angola e em Cabo Verde. Parte deles, em famílias que já viviam em África há várias gerações, há séculos. Quando aquela colónias adquiriram a independência, a maioria dessas pessoas retornaram à pátria ancestral, não usurparam a terra  a ninguém, embora algumas vezes fossem acusados disso. Eram os “retornados.”

Eu considero-me um “retornado” à Terra de Israel.

 

O caso da Terra de Israel é diferente. A conquista árabe da Palestina teve início no ano de 640. Desde então deu-se uma gradual e lenta islamização das povoações indígenas (cristãos, samaritanos e judeus – sim uma parte dos árabes da Palestina já foram judeus!). Só entre 1250 e 1516 (para nos situarmos no tempo, Portugal já havia sido reconquistado aos muçulmanos) se deu a aculturação dos indígenas à identidade árabe, e a língua árabe tornou-se a língua vernácula da região. Só desde então são “árabes”.

Os árabes eram principalmente membros de tribos nómadas, pastores e soldados. Havia grandes proprietários, os “efendi” que cultivavam as suas terras por meio de rendeiros locais. Os primeiros imigrantes judeus compraram as terras para estabelecer as primeiras colónias aos “efendi”, que nem sequer viviam na Palestina, mas sim no Líbano, na Síria e na Turquia. O resto da população árabe vivia das taxas que cobrava aos indígenas não muçulmanos, pelo direito de exercerem as suas religiões. Eram a jizya (imposto por cabeça) e a kharaj (imposto pelo cultivo das terras). Naturalmente não tinham interesse em converter os indígenas ao Islão, para não perderem essa fonte de receitas fiscais.

Quando se iniciou a imigração “sionista” para a Palestina, a população total desta, incluindo a Cisjordânia, era de meio milhão de pessoas, das quais a maioria era árabe. Em 1947, data da resolução de partilha, viviam aqui menos de 2 milhões de pessoas, dos quais 630 mil eram judeus. Não foi estranho a esse aumento da população árabe a considerável melhoria da situação económica resultante da chegada dos imigrantes judeus, que vieram cultivar a terra. Para compararmos, o total da população do Estado de Israel, no final de 2013, era já de 8 milhões, dos quais 1,7 milhões são árabes cidadãos de Israel. Além da Cisjordânia e de Gaza.

Sim, mais de 20% da população do Estado de Israel, são árabes, ditos “palestinianos”, cidadãos de pleno direito, com todas as regalias e acesso livre a todas as carreiras, inclusive à política. No parlamento de Israel, o Knesset, há dez deputados árabes, eleitos, por três partidos políticos.

Na Cisjordânia vivem, mais ou menos, 2,6 milhões, em Gaza 1,7 milhões, e em Jerusalém oriental 190 mil. Segundo as estimativas, mais 5,5 milhões de palestinianos vivem fora do país, nos países árabes e outros. Nada foi feito pelas nações árabes, principalmente pelos países do petróleo, para melhor as condições de vida desses palestinianos. Nem se criaram postos de trabalho. Só aqueles que conseguem autorizações de trabalho dentro de Israel, provando que não são terroristas, conseguem trabalho. Isto inclui as fábricas instaladas nos colonatos, cujos produtos a União Europeia boicota, deixando os palestinianos ainda com menos oportunidades de trabalho…

Portanto, quando se fala em “ocupação” e “expulsão” dos árabes da Palestina, e expropriação das suas terras, há que ter os números em perspectiva. Primeiro porque a população judaica do reduzido território do Estado de Israel é hoje dez vezes maior do que era na data da independência, e ainda há espaço para muitos mais… sem tirar lugar a ninguém. Nas últimas semanas estão a chegar muitos judeus franceses, fugindo à onda de anti-semitismo árabe que ali grassa. Alguns deles, chegados durante os ataques de mísseis de Gaza, e que foram viver precisamente na área mais atacada, declararam que fugiram do inferno em França para o inferno em Israel, mas assim mesmo preferem o inferno na sua terra.

Segundo, deve notar-se que os 1,7 milhões de árabes que vivem hoje em Israel, são os que não quiseram deixar as suas terras quando da independência de Israel (e os seus descendentes), e ninguém os obrigou a ir embora. Antes pelo contrário, há muitos palestinianos que se casam com árabes de Israel, para poderem viver cá!

Por estes dias vemos, em Israel, manifestações de cidadãos árabes, contra os bombardeamentos em Gaza, por solidariedade com os seus irmãos. Mas quando alguém fala em troca de territórios, passando as terras em que vivem para a Autoridade Palestiniana, em troca dos colonatos judaicos na Cisjordânia, eles protestam veementemente. Querem continuar cidadãos de Israel. E lá têm as suas razões.

Em 1948 a Cisjordânia foi ocupada pelo Reino da Jordânia, e a Faixa de Gaza pelo Egipto. Hoje fala-se num Estado Palestiniano ao lado do Estado de Israel. Como e quando surgiu a ideia de um “povo palestiniano” e de um Estado independente palestiniano?

A resposta terá que ficar para outro dia, pois esta já vai longa.

E, nessa altura, analisaremos também as diferenças de atitude em relação às próprias crianças.criancas Gaza 2

    criancas ashdod            

(serão necessárias legendas?)

 

 

 

 

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No dia da Independência de Israel – 2014

Na terça-feira, 6 de Maio de 2014, o Estado de Israel comemora o seu 66º ano de independência.

Não creio que seja possível explicar a quem nunca soube o que significa não poder regressar à sua pátria, não ter um governo independente e um exército para o defender quando atacado, em qualquer parte do mundo, por que razão a alma do israelita vibra tanto perante as comemorações da sua independência. Sobretudo quando isso sucede uma semana depois da recordação do Holocausto, no qual foram assassinados seis milhões de judeus, perante a impassibilidade de todas as nações do mundo.

Para quem necessitar de ser recordado, relembro o que escrevi há seis anos http://ruadajudiaria.com/?p=611

Quem quiser assistir ao vivo à cerimónia de abertura das comemorações deste ano, pela Internet, poderá procurar, na 2ª feira, 6 de Maio, às 17:50, hora de Lisboa, no site da TV israelita canal Um em www.iba.org.il

Hoje chamo a vossa atenção apenas para os seguintes pormenores.

Na véspera do Dia da Independência, lembramos os 23.169 soldados mortos durante estes 66 anos, em defesa da Pátria. No domingo à noite, ao por do sol, a bandeira nacional é colocada a meia haste, na presença das famílias enlutadas, e são ditas orações em suas memórias.

Na segunda-feira, a cerimónia de transição realiza-se no Monte Herzl, sob a presidência do presidente do Knesset (Parlamento), Yuli Eidelstein, e com guarda de honra da Guarda do Knesset, um corpo de polícia especial, que não depende do Ministério da Defesa.

A cerimónia inicia-se com o levantamento da bandeira, da meia haste para o topo do mastro.

Assume o comando das forças em parada, um homem que já o faz há mais de 30 anos, e faz questão de continuar a fazê-lo todos os anos. Vão vê-lo com todo o seu garbo. É o Coronel David Rokni, que este ano cumpre 81 anos de idade.

Uma parte importante da cerimónia é a transmissão da bandeira oficial do Estado de Israel, pelos porta-bandeiras do regimento que a teve à sua guarda durante o ano findo, para os porta-bandeiras do regimento que a vai guardar durante este ano. Todos os regimentos do exército estarão representados com as suas bandeiras regimentais.

E o mais importante será o acender dos 12 fachos, representando as 12 tribos de Israel. Todos os anos são escolhidas 12 pessoas, que se distinguem entre a população, para cada uma acender um dos fachos, fazendo no acto uma declaração sobre o sector que representa.

Este ano foi decidido que todos os 12 fachos serão acesos por senhoras, cada uma com a sua história de valor.

Peço licença para destacar apenas uma, porque assisti, no noticiário de um dos canais de TV, na 4ª feira, ao ensaio da sua participação. Refiro-me a Miriam Perets, natural de Marrocos, que acende um facho em representação das famílias enlutadas durante as guerras de Israel pela sua independência. Três vezes Miriam Peretz tentou ler a pequena alocução que terá de fazer ao acender o facho. Três vezes, ao chegar ao ponto em que invoca os nomes dos seus dois filhos, mortos como soldados, ela se desfez em lágrimas e disse: “Não, eu não consigo. Terá que ser outra pessoa.” Mas depois recompôs-se, voltou a ensaiar o acto, cheia de coragem, e, ao terminar disse: “Consegui. Vou conseguir também no dia da Independência.” A jornalista, pivot do noticiário dessa noite, muito conhecida, muito experiente e nada piegas – não se conteve que não passasse as costas da mão pelos olhos, para apagar duas lágrimas teimosas.

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